

Ruínas da clínica de radiologia onde foi encontrada a cápsula de césio 137
Vinte anos após o maior acidente radioativo mundial em uma área urbana, a capital goiana ainda conta as vítimas do césio 137. A lista de contaminados e mortos não pára de subir. E, provavelmente, nunca será concluída. Não existe um controle exato de pessoas expostas à radiação. No mais recente levantamento feito por autoridades estaduais e federais, 743 cidadãos são apontados, oficialmente, como vítimas da tragédia ocorrida em 13 de setembro de 1987. É sete vezes mais que o divulgado pelas autoridades, em 1988, quando foram listadas 102 vítimas.O novo levantamento inclui duas vítimas reconhecidas agora, mais 61 crianças nascidas após o acidente e os 578 funcionários públicos expostos ao risco. Os filhos do césio nasceram de pais contaminados pelo pó branco de brilho azul. O produto vazou de um aparelho de raios X abandonado em um hospital desativado, no centro de Goiânia, e violado por dois catadores de sucata. As outras vítimas são servidores públicos — médicos, enfermeiros, bombeiros e policiais militares. Também trabalhadores de baixa renda foram colocados em perigo — alguns do Consórcio Rodoviário Intermunicipal e da construtora Andrade Gutierrez.Todos tiveram contato direto com o material radioativo ou trabalharam na descontaminação. Nenhum recebeu roupas especiais para concluir o serviço em segurança. Assim, sofreram os efeitos diretos da radiação e carregaram resíduos do césio 137 nas roupas, contaminando familiares, amigos e vizinhos. Apesar de reconhecidos pelo poder público como vítimas do acidente, a maioria dos servidores estaduais e municipais não conta hoje com qualquer tipo de ajuda.Levantamento feito pelo Correio, a partir de dados do Ministério Público de Goiás e dos sindicatos das categorias, revela que ao menos 40 servidores morreram sem conseguir assistência médica ou financeira do poder público. Outros 170 tentam um auxílio, ainda em vida, brigando na Justiça. Oficialmente, só foram reconhecidas até agora 14 mortes em decorrência da exposição ao césio 137. O número é contestado por associações de vítimas do acidente e por promotores públicos, que apontam 66 casos.

Crianças e adultos, ainda hoje, passam por exame do contador Geiger, aparelho que permite detectar a contaminação por material radioativo. O contador é colocado próximo ao corpo da pessoa e a radiação emitida é medida.
Os envolvidos na tragédia entendem que o número de contaminados é maior do que o reconhecido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Os técnicos examinaram 112 mil pessoas na época do acidente. Aquelas com índices mais elevados de contaminação foram colocadas em quarentena no prédio da Febem. Das 120 pessoas que sentiram os efeitos da radiação, 49 foram internadas e 21, submetidas a tratamento intensivo.
Quatro morreram em menos de quatro meses. Entre elas, a menina Leide Ferreira das Neves, 6 anos, que virou símbolo da tragédia. As vítimas identificadas pela Cnen foram divididas em dois grupos: o primeiro para aqueles com altos índices de radiação e, o outro, com menor índice. A esses, bem como às segunda e terceira gerações de descendentes, foram asseguradas pensões vitalícias de até R$ 800, além de assistência médica integral, que inclui os medicamentos.Os médicos Orlando Teixeira, Criseide Dourado e Carlos Bezerril, responsáveis pela clínica abandonada onde o césio foi achado, e o físico hospitalar Flamarion Goulart foram condenados a três anos de prisão em regime semi-aberto por homicídio culposo (sem intenção). Bezerril cumpriu um ano de prisão, sendo beneficiado por um indulto de Natal. Dourado e Teixeira também ficaram só um ano na cadeia. O segundo abandonou a medicina após a tragédia. Hoje é fazendeiro e empresário em Mato Grosso e atende esporadicamente em hospitais da região.O processo de Flamarion está em fase de apelação. Teixeira e Bezerril são sócios de um hospital de tratamento de câncer, em Goiânia. Os três não foram localizados nem retornaram as ligações do Correio. Goulart mora em Goiânia, mas não falou com os repórteres. Foi ele quem sugeriu as primeiras providências para o caso, como evacuação dos locais de contaminação e a triagem realizada no Estádio Olímpico de Goiânia para identificar possíveis atingidos pelo produto.

Zilda era a funcionária responsável pela faxina da casa que abrigou os contaminados: contraiu câncer
O médico José Ferreira Silva, chefe da Superintendência Leide das Neves (Suleide), criada para atender as 104 vítimas reconhecidas pelo estado em 1987, não acredita na potencialização de doenças decorrentes do acidente. “Nesses 20 anos, não observamos nesse grupo nada de diferente do que ocorre na população normal. Muita gente busca a Suleide com doenças que dizem ser decorrência do césio. É preciso que haja nexo causal, que essas pessoas tenham sido expostas à radiação”, explicou.Técnicos da Cnen fazem medições das seis áreas mais contaminadas, a cada três meses. “Há césio nos focos. Vai demorar 300 anos para eles serem descontaminados”, conta o engenheiro químico Cesar Luiz Vieira Ney. Ele frisa que a radiação medida estabilizou há três anos e a quantidade é inofensiva. “Há menos radiação exposta que a encontrada em cidades brasileiras com anomalias, como Guarapari (ES) e Poços de Caldas (MG)”.
RELEMBRANDO O CASO: A fonte de Césio que deu origem ao acidente radiológico, foi manipulada pela curiosidade de dois sucateiros que encontraram um aparelho de radioterapia, nas antigas dependências do Instituto Goiano de Radioterapia, um prédio abandonado da Santa Casa de Misericórdia. Era a manhã do domingo, 13 de setembro de 1987, quando dois sucateiros, Roberto dos Santos e Wagner Mota, removeram a máquina em um carrinho de mão até a casa de um deles. Eles ignoravam o que era aquela peça de 100 quilos, estavam apenas interessados no que podiam ganhar com ela, vendendo as partes de metal e chumbo em ferro-velhos da cidade. Durante a desmontagem do aparelho, foram expostos ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio-137 (CsCl), pó branco semelhante ao sal de cozinha, no entanto, brilha no escuro com uma coloração azulada. É altamente radiativo, que provoca queimaduras, vômitos e diarréia até a morte. Cientificamente, o césio 137 é um radioisótopo usado no tratamento do câncer e em processos industriais como fonte de calibração de instrumentos e de medição de radiatividade. O organismo humano necessita de 110 dias para eliminá-lo. Atualmente é substituído pelo cobalto. Cinco dias depois, a peça foi vendida a Devair Alves Ferreira, que a arrombou e se encantou com o brilho azul emitido pelo pó de césio 137. Acreditando estar diante de algo sobrenatural, Ferreira passou do dia 18 até o dia 21 recebendo amigos e curiosos interessados em conhecer o misterioso pó brilhante.

O soldado Marques trabalhou na área contaminada. Teve câncer no cérebro e o filho nasceu com problemas de coração
Dentre essas pessoas estava seu irmão, Ivo, que fora visitá-lo porque sabia que Devair estava doente. Na avaliação da família, ele estava com intoxicação alimentar. Os primeiros sintomas da contaminação (tonturas, náuseas, vômitos e diarréia) apareceram algumas horas depois do contato com o pó, levando as pessoas a procurar farmácias e hospitais, sendo medicadas como portadoras de uma doença contagiosa. Na verdade, descobriu-se mais tarde que ele apresentava sintomas descritos pelos médicos como Síndrome Aguda da Radiação. Ivo levou um pouco do pó de Césio para casa e mostrou as pedrinhas brilhantes para a esposa, a filha e os amigos. Sua filha, Leide das Neves, de seis anos de idade, não só manipulou as pedrinhas, como também ingeriu pequena quantidade delas. É que a menina brincou com as pedras antes do jantar e, ao alimentar-se, comeu césio misturado à comida. Leide foi a primeira a morrer. Ela foi considerada a maior fonte radioativa do mundo, já que foi quem mais absorveu a radiação do Césio de todos os que foram irradiados.
O vizinho de Devair, Edson Fabiano, também levou para casa algumas pedrinhas e compartilhou a beleza de seu brilho com seu irmão, Ernesto Fabiano, que fez o mesmo. A casa dele foi considerada um dos principais focos de contaminação, porque ele jogou o material radioativo no vaso sanitário.
O metal proveniente da máquina de radioterapia foi vendido para outro ferro-velho, cujo dono se chamava Joaquim. Ele devolveu a cápsula de césio por achar que não tinha valor comercial.
Os sintomas só foram caracterizados como contaminação radioativa em 29 de setembro, depois que esposa do dono do ferro-velho, Maria Gabriela, levou parte do aparelho desmontado até a sede da Vigilância Sanitária. Os médicos que a receberam solicitaram a presença de físicas por desconfiarem de que seria material radioativo. O físico nuclear Valter Mendes, de Goiânia, constatou, no dia 29, que havia fortes índices de radiação na Rua 57, do setor Aeroporto, bem como nas suas imediações. Ele acionou então a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), por considerar gravíssimo o acidente.
José Júlio Rosenthal, chefe do então Departamento de Instalações Nucleares, dirigiu-se à Goiânia no mesmo dia. Ao encontrar o quadro preocupante, acionou o médico Carlos Brandão da Cnen e também o médico Alexandre Rodrigues de Oliveira, da Nuclebrás (hoje, Indústrias Nucleares do Brasil). Eles chegaram à Goiânia no dia 30, quando a secretaria de Saúde do estado já fazia a triagem dos acidentados num estádio de futebol.
As que tinham entrado em contato com a fonte diretamente estavam num hospital do estado, que tinha uma enfermaria separada para atender as vítimas. De acordo com Alexandre de Oliveira, no estádio foram triadas cerca de 30 pessoas que apresentavam vômito, náusea, dor de cabeça, emagrecimento, dores no corpo e queda de cabelo. Outras dez foram encaminhadas ao hospital.
A primeira medida foi separar toda a roupa dessas pessoas, lavá-las com água e sabão para descontaminação externa. Depois, os que entraram em contato com a cápsula tomaram um quelante - substância que elimina os efeitos da radiação - chamado azul da Prússia. Com ele, as partículas de césio saem do organismo pelas fezes e pela urina. Todo esse material foi reunido, encapsulado em contêineres de metal para posterior descarte em um depósito.
Quatro morreram pouco depois de um mês do acidente, Maria Gabriela, a menina Leide e dois funcionários do ferro-velho de Devair. Ele morreu anos depois de câncer no fígado, doença que, segundo os médicos da Superintendência Leide das Neves (Suleide) - criada para atendimento exclusivo e permanente dos acidentados - não se desenvolveu em função da exposição do paciente à fonte radioativa.
Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), além delas, de 112.800 pessoas que foram monitoradas, 129 apresentaram contaminação corporal interna e externa. Destas, 49 foram internadas e 21 exigiram tratamento médico intensivo.
A propagação do césio-137 para as casa próximas onde o aparelho foi desmontado se deu por diversas formas. Merece destaque o fato de o CsCl ser higroscópico, isto é, absorver água da atmosfera. Isso faz com que ele fique úmido e, assim, passe a aderir com facilidade na pele, nas roupas e nos calçados. Levar as mãos ou alimentos contaminados à boca resulta em contaminação interna do organismo.
Os trabalhos de descontaminação dos locais afetados produziram 13,4 t de lixo contaminado com césio-137: roupas, utensílios, plantas, restos de solo e materiais de construção. O lixo do maior acidente radiológico do mundo está armazenado em cerca de 1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêiners em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiás, vizinha a Goiânia, onde deverá ficar, pelo menos 180 anos.
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FONTE: http://noticias.correioweb.com.br/materias.php?id=2719004?=Brasil