Nov 23 2007
Banco de DNA ajuda na localização de menores desaparecidos
O uso da tecnologia pode ajudar na busca de crianças e adolescentes desaparecidos. Com a criação de um banco de DNA dos pais ou parentes próximos do desaparecido é possível avaliar o vínculo genético com indivíduos que forem localizados. O projeto Caminho de Volta, criado em 2004 na Faculdade de Medicina da USP em parceria com a Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo, possui um banco de DNA e um banco de dados destinados a auxiliar no processo de busca dos desaparecidos, pelo uso de técnicas de biologia molecular, genética e informática.Estima-se que no Brasil cerca de 40 mil crianças e adolescentes desaparecem por ano, sendo oito mil somente no estado de São Paulo. Dentre as principais causas dos desaparecimentos estão as fugas de lares violentos, que correspondem a cerca de 70% dos casos. O DNA, que pode auxiliar nas buscas, é a abreviatura de ácido desoxirribonucléico, uma molécula orgânica que reproduz o código genético e contém toda a informação genética de um indivíduo. Os bancos de DNA ou bancos de material genético são arquivos de amostras biológicas, ou seja, de DNA ou seqüências de DNA para diferentes finalidades.
O banco de DNA permite a rápida e ágil avaliação de vínculo genético das crianças e adolescentes encontrados. Além disso, a coleta de dados pessoais do desaparecido, com informações sobre a organização familiar e sobre as circunstâncias do desaparecimento compõem o banco de dados que possibilita o cruzamento das informações armazenadas.
O projeto atinge oito cidades e a capital paulista e, desde agosto, também o Paraná. O banco de DNA do Caminho de Volta é o primeiro do país com a finalidade de encontrar crianças e adolescentes desaparecidos e a idéia é que seja estendido para o Brasil inteiro; porém, ainda não há previsão para sua implantação em outros estados. O banco de DNA desse projeto conta hoje com 560 famílias cadastradas e sob acompanhamento. Cerca de 60% das crianças são encontradas ou voltam espontaneamente para casa. O banco de DNA identificou até o momento quatro crianças, sendo que três delas foram encontradas mortas. A quarta criança esteve em um abrigo enquanto estava desaparecida. No Paraná, 30 famílias foram recentemente cadastradas.
O projeto atende famílias que tiveram seus filhos desaparecidos, desde que com idade inferior a 18 anos, mas é preciso que seja feito um boletim de ocorrência do desaparecimento. Casos antigos também são aceitos, desde que estes pré-requisitos sejam atendidos. “Após o esclarecimento sobre o projeto, as famílias que desejam participar assinam um termo de consentimento, respondem a um questionário estruturado sobre o desaparecimento, a estrutura familiar e o perfil emocional da criança”, explica Gilka Gattás, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do projeto Caminho de Volta. Então, uma gota de sangue dos pais é coletada em um papel de filtro especial para análise do DNA, que pode ser guardado por até 20 anos.
A família volta a conversar com o mesmo psicólogo que a atendeu por pelo menos três entrevistas na própria delegacia. Uma vez identificada uma possível forma de ajuda a esses familiares, eles são encaminhados para uma rede de atendimento psicossocial tão próxima quanto possível de suas casas. “Uma criança desaparecida, quando encontrada, está sob a responsabilidade de uma autoridade policial ou judicial e são eles os responsáveis pelo encaminhamento das crianças ou mesmo de amostras de sangue para inclusão no banco de DNA”, afirma a coordenadora.
Os dados obtidos são confidenciais, sem acesso aberto ao sistema do banco de dados que é usado somente pela equipe do projeto. “Nós fazemos os cruzamentos e informamos as autoridades solicitantes”, garante Gattás. Após a resolução dos casos de desaparecimento, o DNA armazenado é retirado do banco apenas quando a pessoa é encontrada morta. Nos outros casos, porém, esse DNA tem sido mantido, “pois existe uma alta taxa de reincidência de fuga dessas crianças”, explica a coordenadora.
Além de servirem para ajudar na busca de desaparecidos, bancos de DNA podem ser usados na identificação de pessoas em casos de catástrofes naturais, guerras, extermínios, acidentes e assassinatos que desfiguram a pessoa. Também podem ser usados para pesquisa e diagnóstico de doenças genéticas, ou ainda, para identificação de criminosos, como ocorre nos Estados Unidos e na Inglaterra. Os ingleses possuem a maior base de dados do mundo com informações de DNA que podem ser analisadas independentemente do consentimento do indivíduo. O Brasil ainda não possui banco de DNA criminal, mas a Polícia Federal já pediu ao Congresso a aprovação de um projeto de lei que trata do assunto.
Muitas questões éticas estão envolvidas na criação de bancos de DNA e cuidados especiais devem ser tomados em relação ao sigilo dos dados. Empresas poderiam se negar a contratar pessoas e companhias seguradoras e planos de saúde poderiam, por exemplo, recusar a fazer um contrato com alguém cujo exame do DNA apontasse o risco de alguma doença grave, ou ainda aumentar o valor de sua apólice. Antes de o Congresso aprovar o banco de DNA criminal, portanto, deve deixar bem clara a regulamentação sobre o sigilo dos dados.
Convivendo com a ausência

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MAIOR QUE OS NÚMEROS, É O DRAMA DAS FAMÍLIAS DE DESAPARECIDOS; SAIBA O QUE ESTÁ SENDO FEITO PARA AJUDÁ-LAS |
No dia 13 de setembro de 2001, Marla saiu da chácara em que morava na cidade de Cotia de manhã para deixar o carro na casa de sua mãe e seguir de ônibus para o trabalho. Não era nenhuma grande mudança na sua rotina, já que freqüentemente trocava o automóvel pelo ônibus na hora de ir para a escola lecionar suas aulas de educação física. A diferença dessa para as outras manhãs é que nesse dia a irmã do funcionário da Poli Zacharias Gabilha Neto nunca mais foi vista pelos amigos, irmãos ou pelos dois filhos.
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“A gente segue a informação de alguém, mobiliza um monte de gente para procurar em várzeas, barrancos, e nada. Isso tudo vai minando a família aos poucos” |
A história da família de Zacharias é mais uma entre as 17.559 registradas no Estado de São Paulo pela Delegacia de Pessoas Desaparecidas, divisão ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Mas se a frieza dos números talvez não possa expressar a seriedade desse problema, o sofrimento vivido pelas pessoas que convivem com a sombra de um ente desaparecido com certeza pode. Família e amigos se mobilizam na procura, refazem seus passos, conversam com pessoas, mas à medida que o tempo passa, a chama que alimenta a esperança vai se apagando, e fica a resignação confundida com um sentimento de impotência. Na montagem desse drama, até a lei colabora com um pouco de crueldade, impedindo a família durante dez anos de vender o carro, fechar as contas do banco ou qualquer outro trâmite burocrático que envolva a pessoa desaparecida. Uma estranha sensação de estar presente no papel, mas ausente na vida.
| “Depois de algum tempo as pistas somem. As pessoas tentam ajudar mas acabam dando contribuições negativas mesmo que não | |
| intencionais”, conta Zacharias. Sua família procurou pela irmã em diversas instituições, hospitais, delegacias, IML, veículos de divulgação, entre outros. “A gente segue a informação de alguém, mobiliza um monte de gente para procurar em várzeas, barrancos, e nada. Isso tudo vai minando a gente aos poucos.” | |
Apesar de pouco aparelhada e com uma infra-estrutura deficitária nesse sentido, a polícia civil realiza um bom trabalho, solucionando, segundo o DHPP, cerca da metade dos casos. Ainda assim, esse departamento carece de estatísticas oficiais, e as que existem não são detalhadas o suficiente para se construir um panorama dos casos de desaparecimento no Estado.

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Atendimento no DHPP |
De qualquer modo, a própria sociedade se articula para amenizar esse drama, através de entidades, ONGs ou projetos como o Caminho de Volta, criado há pouco mais de cinco meses, no Centro de Ciências Forenses (CenCiFor), na Faculdade de Medicina da USP (FM). Restrito somente a crianças e adolescentes, o projeto aplica a tecnologia de análise de DNA na ajuda à busca por desaparecidos.
| Um convênio com a Polícia Civil permite que uma equipe fique de plantão na Delegacia de Pessoas Desaparecidas e apresente o projeto às famílias dessas crianças. “A Universidade traz um caráter científico, investigativo, totalmente diferente do papel | |
| da Polícia, que é de buscar e tomar uma atitude para solucionar o caso”, afirma Gilka Gattas, coordenadora do Caminho de Volta.Se aceitarem participar do projeto, o material biológico da família é coletado na própria delegacia e enviado para a FM, onde o DNA é seqüenciado e colocado no Banco de DNA, para que seja cruzado com a informação genética da criança e identificado como o desaparecido ou não. | |
A equipe de psicólogos que fica no DHPP oferece auxílio psicológico a essas famílias e aplica um questionário desenvolvido pelo projeto. “Perguntamos sobre a criança, a estrutura familiar, o histórico da família, se ela está envolvida com drogas, etc.”, afirma a psicóloga Cláudia Garcia, chefe da equipe.

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Cláudia Garcia “A gente tenta ampliar um pouco alguns aspectos que o investigador e o policial não estão treinados para desenvolver.” Esse estreito contato com o drama dessas pessoas abre os olhos da equipe de psicólogos para situações que inicialmente parecem inimagináveis. “A gente encontra desde famílias muito chateadas, que sofrem bastante com o desaparecimento até aquelas que nos fazem pensar se essa mãe quer mesmo que essa criança volte, se ela não fugiu para se sentir querida”, revela Cláudia. |

Coleta de material biológico
Apesar dos esforços da sociedade civil, o drama do desaparecimento é difícil de ser prevenido e ainda mais complicado de ser explicado. No início são muitas perguntas, o que aconteceu? Por que fugiu? Quando vai voltar? Mas depois de algum tempo tudo o que você quer ouvir é uma resposta, coisa que a lei não dá, pois ela só considera a pessoa “desaparecida” após uma década. Um longo período, certamente, mas que evita transtornos com registros civis, por exemplo, já que não foram poucos os casos de desaparecidos que voltam sete ou oito anos depois. “O que a minha família queria mesmo é um desfecho para essa história. Qualquer coisa que colocasse uma pedra em cima disso tudo. Principalmente para os filhos, porque por mais que eles estejam bem, não dá para dizer que isso são águas passadas, lamenta Zacharias. “Tendo algo definido, você se conforma, engole, digere e é uma página virada.”
Fontes: http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3¬icia=363
http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2005/espaco53mar/0comportamento.htm
