Dec 30 2007

Os versos de um assassino

Publicado por Tandai às 4:17 pm sobre Dicas

Brasil Contra a Pedofilia - Michael Connelly

Michael Connelly

O aparente suicídio de um detetive do Departamento de Polícia de Denver, no Colorado, Estados Unidos, leva um repórter a investigar o caso com mais profundidade e descobrir que o policial pode ter sido apenas mais um cadáver na lista de um serial killer. Esse é o ponto de partida para o romance policial “O Poeta”, do escritor norte-americano Michael Connelly.

Sempre presente na lista dos mais vendidos no The New York Times, o autor é conhecido por suas tramas memoráveis com o detetive Harry Bosch – que protagonizou 12 dos 18 títulos que Connelly publicou. Inspirado no pintor holandês Hieronymus Bosch, o homônimo americano percorre o inferno da cidade de Los Angeles, um universo de perversão e crime.

Em “O Poeta”, o detetive é substituído pelo jornalista Jack McEvoy. Publicado originalmente em 1996, o romance ganhou uma tradução recente da editora Record, pela Coleção Negra, série que conta com mais de 90 títulos do gênero policial.

Trama

Na obra em questão, McEvoy, especialista em reportagens especiais sobre homicídios, não acredita no suicídio de seu irmão gêmeo, Sean. Este era chefe da Unidade de Crimes Contra a Pessoa, do Departamento de Polícia de Denver, e investigava um misterioso homicídio.

Obcecado com o crime e deprimido por não conseguir resolvê-lo, Sean havia procurado ajuda de um psicólogo. O fato, somado à cena do crime, é suficiente para dar o caso por encerrado. Não há dúvidas, o detetive deu um tiro na própria cabeça. Jack é o único a discordar.

Após pesquisar na imprensa outros casos de policiais que se mataram e reconstituir a cena do suicídio de Sean, o jornalista consegue reunir indícios suficientes para reabrir não apenas o caso de seu irmão, como outros supostos suicídios – que estavam arquivados e tinham pontos em comum com a morte de Sean.

O principal elo entre os crimes são versos do poeta e escritor norte-americano Edgar Allan Poe. A cada morte, uma frase solta que, fora do contexto, não apresentava nenhum sentido. A partir do momento em que se estabelece a ligação entre os casos, descobre-se que os versos são a assinatura do assassino, ao qual atribuem a alcunha de Poeta.

O romance relaciona-se intertextualmente com a obra de Poe – há um diálogo, embora sem grande profundidade. Na trama, o assassino, que está ligado a uma rede de pedofilia, identifica-se de alguma forma com o autor do célebre poema “O Corvo”.

A esse respeito, vale destacar uma curiosidade que, infelizmente, Connelly não aborda no romance: aos 26 anos, em 1835, Poe casou-se secretamente com sua prima, Virginia, então com 13 anos.

Importante lembrar também que, com o conto “Assassinatos na Rua Morgue”, Poe é considerado o inventor do gênero policial – “um dos grandes descobrimentos modernos”, como bem disse o escritor argentino Ricardo Piglia.

Nesse conto, surge o detetive C. Auguste Dupin, protótipo de centenas de detetives que viriam depois. Dupin é um arquétipo literário, o detetive amador, o homem que coleciona enigmas como os outros colecionam objetos, segundo o escritor e crítico francês Francis Lacassin.

Perfil

Tal arquétipo aplica-se ao protagonista de “O Poeta”, uma vez que é o jornalista Jack McEvoy quem vai desvendar por conta própria o mistério por trás do suicídio de seu irmão gêmeo. Embora não seja detetive profissional nem policial, é ele quem sai na frente da polícia e do FBI no caso do serial killer.

Longe de ser uma obra genial, o romance é instigante, e o foco narrativo alternado dá ritmo à história e força ao suspense. O ponto de vista principal é o de McEvoy, personagem-narrador, interrompido em certos momentos cruciais para dar lugar a uma narrativa em terceira pessoa.

Nesse ponto, o narrador onisciente vai mergulhar na mente de William Gladden, um pedófilo que ganha a vida vendendo fotos de crianças a outros como ele, filiados ao Clube AP (uma rede de pedófilos estabelecida via Internet).

A escolha do foco narrativo para falar de Gladden talvez se explique por um detalhe pinçado do texto: certos criminosos, ao serem entrevistados por agentes do FBI, concordam em falar na terceira pessoa, “como se quem tivesse cometido os crimes fosse outra pessoa”.

A leitura de “O Poeta” consegue se manter tensa do início ao fim. Ideal para os apaixonados por histórias de suspense. A conclusão do romance, com uma virada brusca na trama, vai surpreender o leitor – que finalmente poderá recuperar o fôlego.

Fonte: http://gazetaonline.globo.com/jornalagazeta/caderno2/livros/livros_materia.php?cd_matia=388332&cd_site=86

Trackback URI | Comments RSS

Deixe um comentário