Feb 16 2008

Adoção veta negros

Publicado por Tandai às 2:50 am sobre São Paulo

Brasil Contra a Pedofilia adoção

Guilherme Tavares

Gazeta de Ribeirão
guilherme.tavares@gazetaderibeirao.com.br

Ribeirão Preto - Pesquisa feita pelo Setor de Serviço Social e Psicologia da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Fórum de Ribeirão com os 103 candidatos a adoção que esperam uma criança em uma “fila” aponta que a maioria (84%) rejeita criança negras.

O número é muito próximo do registrado com crianças com alguma espécie de deficiência, que chega a 87% de rejeição. Além disso, só 29% dos candidatos aceitariam levar uma criança com mais de 2 anos. Apenas 15% são solteiros.

Segundo o levantamento, feito com exclusividade para a Gazeta, os candidatos a adoção são pessoas na faixa dos 40 anos, com renda média mensal de R$ 7 mil e que vivem problemas de infertilidade.

As restrições são o oposto do perfil geral das crianças que aguardam adoção nos abrigos da cidade, o que dificulta o processo para a maioria. A fila de espera pode demorar até cinco anos, mas a escolha pode não acontecer nunca.

Na média, a idade mínima desejada da criança a ser adotada é de quatro meses, enquanto a máxima é de 24 meses - somente 29,1% dos candidatos aceitariam uma criança com mais de dois anos.

O perfil dos candidatos também foi traçado: 89,9% são casais, que apresentam como principal justificativa para a adoção problemas de infertilidade. A média de idade dos homens é de 42 anos e das mulheres é de 40 anos.

Segundo a psicóloga do Fórum de Ribeirão Valéria Mattar, o perfil das crianças que se encontram hoje nos abrigos da cidade aguardando uma adoção é diferente do perfil da criança desejada. “Em sua maioria, as crianças que aguardam uma adoção são negras e não são bebês”, afirma.

O setor não tem dados estatísticos sobre o perfil das 140 crianças abrigadas da cidade. Dessas, pelo menos 10% aguardam oportunidade de adoção enquanto as outras passam pelos trâmites legais.

De acordo com Paulo César Gentile, juiz da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso de Ribeirão, o tempo médio de espera na fila para adoção diminuiria se as pessoas tivessem menos restrições quanto ao perfil do adotado. “As crianças que estão nos abrigos também têm histórias de vida, temos que dar voz à essas crianças e uma oportunidade de melhorarem de vida”, diz.

Mudança

Para tentar mudar essa situação, os profissionais da área de assistência social da Justiça de Ribeirão trabalham orientando os candidatos sobre as dificuldades que tais restrições podem acarretar no processo. “Existem crianças disponíveis e as pessoas têm que entender que elas também têm direito de ter uma família. Por isso que priorizamos as adoções tardias, das crianças com mais idade”, diz Mattar.

Irmãos esperam por família há 2 anos

Há cinco anos morando em abrigos da cidade, os irmãos Jonatas (16), Fabrício (14) e Carlos Augusto Herculano de Oliveira (13) há dois aguardam para serem adotados.

Eles tiveram que sair da casa da avó porque ela não tinha mais condições financeiras para cuidar dos três. Atualmente eles estão abrigados com outras 14 crianças no Nosso Clubinho, instituição de Ribeirão que recebe crianças e adolescentes de quatro a 16 anos.

Os irmão Oliveira dizem ter muita vontade de serem adotados. “É bom ter uma família, ter alguém para cuidar de você, para te apoiar quando você precisar”, afirma Jonatas.

Os três sonham em morar juntos em uma mesma família, mas caso a adoção só ocorra para um deles e tenham que se separar, concordam com a situação. “Já conversamos sobre isso. Se um dos meus irmãos for adotado e eu não, vou ficar feliz da mesma forma, pois eles terão uma vida melhor. Torço muito por eles”, diz Fabrício. “Mas só se a gente continuar tendo contato um com o outro”, completa Carlos Augusto.

Enquanto o sonho não vira verdade, os irmãos apoiam-se e dizem que formam uma família. “Nós nos cuidamos e nos ajudamos sempre. Temos que contar um com o outro”, diz Jonatas.
(Gazeta de Ribeirão)

Sociólogo vê preconceito

Para o sociólogo e professor de antropologia da UniCOC Delson Ferreira, os números da pesquisa indicam que há um mecanismo de seleção racista no processo. “Os adotantes estão pensando mais em si do que no adotado. Senão, as restrições seriam bem menores”, afirma.

Ele afirma que o processo seletivo é herança cultural da sociedade. “O perfil da criança desejada está próximo do perfil dos adotantes, que escolheriam uma criança parecida com elas justamente para não terem que explicar para a sociedade que ela é adotada”, diz. “O problema envolve o meio social no qual a pessoa vive. Se ela ficar com uma criança muito diferente dela, estará sinalizando para a sociedade que o filho é adotado e terá que ficar explicando porque fez tal escolha em sua vida”, completa.

Analisando os dados, o sociólogo diz acreditar que essas pessoas estão na verdade mais interessadas em resolver um problema pessoal do que um problema social. “Buscar uma criança ideal é como querer ter um filho seu, não querer ajudar as crianças que estão abandonadas esperando por uma oportunidade. Tal comportamento não contribui para ajudar a resolver o grave problema do abandono infantil.”

Mesmo com quatro filhos biológicos já adultos, o casal J.A.S., 62 anos, e A.M.S., 58 anos, decidiram, em 2002, adotar mais uma criança. Sem fazer restrições, escolheram L.C.A.S., que hoje tem 10 anos, mas na época já tinha quatro - idade de difícil aceitação nos processos adotivos.

A mãe, A.M.S., conta que a decisão foi tomada depois que o casal se aposentou. “Nossa vida estava monótona e sempre gostamos de crianças. Como todos os nossos filhos já estavam criados, queríamos uma criança para alegrar nossa casa”, diz ela, que não fez restrições quanto à cor ou idade da criança que escolheu na época. (Gazeta de Ribeirão)
 

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