Feb 24 2008
Por que os nossos filhos estão virando caso de polícia?
Daniela Souza
A dor dos pais do estudante Rodrigo Damm Martins, de 17 anos, que morreu no último domingo quando dirigia um veículo na BR 262, em Domingos Martins, é um fantasma que assombra muitas outras famílias. A cada semana, pelo menos quatro menores são levados à Delegacia do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), ao serem flagrados dirigindo. Da mesma maneira, são pelo menos oito casos por semana de outra dor que vem se tornando cada vez mais comum: a dos pais que pedem desesperados ajuda à Polícia porque não sabem mais o que fazer para ver os filhos longe das drogas.
À família de Rodrigo, que já tinha saído com o carro escondido outras vezes, só resta buscar consolo para a dor maior, da perda de um filho; dor que N., mãe de um rapaz da mesma idade, quer evitar a qualquer custo. Mesmo que para isso seja preciso uma atitude de cortar o coração de qualquer pai, como a que ela tomou há algum tempo: entregar o filho, fora de controle devido ao consumo de cocaína, à Polícia.
De frente para o delegado de plantão, a reação dos pais é quase sempre a mesma: estupefatos, dão de cara com meninos e meninas que lhes parecem perfeitos desconhecidos, capazes de afrontar a lei sem medo. E se perguntam: ‘onde foi que eu errei?’. “Há pais que não são presentes porque não têm tempo, outros não se interessam pelo que se passa com os filhos, ou acham que só acontece com os filhos dos outros”, lamenta a delegada titular da Deacle, Denise Maria Carvalho.
Com a autoridade de quem trabalha com o problema diariamente, a delegada alerta: “os pais precisam conversar com seus filhos, conhecer os amigos e saber por onde ele anda. Muitos são tão distantes que só percebem que algo está errado quando o filho já está roubando coisas em casa, vendendo droga e devendo a traficantes. Aí entram em pânico e aparecem aqui pedindo ajuda.”
Culpa no cartório
A delegada lembra que muitas vezes são os próprios pais que incentivam os filhos a não terem limites, como é o caso dos que liberam a chave do carro antes da hora. Na pesquisa “O Jovem e o Trânsito” feita pelo Instituto Ibope no ano passado com mil jovens de 16 a 25 anos, 50% disseram que aprenderam a dirigir com o auxílio do pai, e 8% da mãe. E mais: 20% dos menores já dirigiram veículos, na faixa etária de 16 a 17 anos. Destes, 60% com o aval dos pais.
“Os adolescentes são ousados e aventureiros mesmo, mas os pais precisam impor limites. Muitos acham bonito dizer que o adolescente já sabe dirigir”, lamenta a delegada. A gerente de Educação no Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), Rosane Giuberti, observa que, ao permitir o que pode parecer uma pequena transgressão, os pais sinalizam aos filhos que não há problema em burlar leis. “A criança aprende com os pais, observando o comportamento deles”.
Risco real
Os adolescentes estão em uma fase em que os hormônios estão efervescentes. Eles querem enfrentar o perigo. Os pais precisam entender isso e conversar muito. Explicar que é preciso respeitar o momento certo de tudo”
Cláudia Murta Psicóloga e professora de Filosofia da Ufes
“Ensinar um filho menor a dirigir é deixá-lo exposto ao risco. Quem não faz isso não precisa ficar escondendo chave de carro”
Rosane GiubertiGerente de Educação no Trânsito do Detran
Minientrevista
Maria Lúcia Teixeira Garcia
Professora do curso de Serviço Social da Ufes
“Não adianta falar que droga mata e permitir em casa álcool e cigarro”
Rede de serviços deficiente, falta de orientação aos familiares, inexistência de uma estrutura específica para o atendimento de crianças e adolescentes. A professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Maria Lúcia Teixeira Garcia, aponta várias dificuldades para que os dependentes de drogas tenham o apoio necessário para conseguir largar o vício. Ela acredita que as campanhas de prevenção, diante da realidade de crianças experimentando drogas cada vez mais cedo, erram ao focar apenas os adolescentes.
Quem não sabe onde procurar precisa começar nas unidades básicas de saúde. Dali deve ser feito o encaminhamento quando necessário. Dados da OMS indicam que em torno de 70% dos usuários de drogas necessitaria de aconselhamento e orientações a serem dados por profissionais da saúde nas unidades básicas. Mas hoje o que se vê é que o acesso está sendo tão difícil que muitos ficam desesperados. Buscam ajuda em líderes espirituais, como pastores, padres e pais de santo. Simpatias e correntes de oração também são comuns. Recursos que podem ajudar, mas não resolvem.
É um ato de desespero. Já ouvi mães afirmarem que preso o filho ficará longe das drogas e protegido dos traficantes. É uma situação muito triste, mas para evitar que isso aconteça é preciso investir em prevenção.
É preciso reconhecer que as drogas se inserem em nosso cotidiano por vários caminhos, como a propaganda. Quem acompanha o que seus filhos vêem na TV? Por estímulo dos pais que muitas vezes bebem e dirigem, ou oferecem bebidas alcoólicas aos filhos quando crianças, no Brasil a experimentação de bebidas alcoólicas ocorre em torno dos 10 anos de idade e em casa. Há muitas crianças e adolescentes nas rua. Como enfrentar o espaço violento da rua sem “mascarar” as ameaças constantes vivenciadas nesses espaços? Também não adianta falar que droga mata e permitir bebida alcoólica e cigarro. É preciso coerência.
“Hoje ele me agradece”
Quanta coragem (ou quanto amor) uma mãe precisa ter para denunciar o filho usuário de drogas à polícia? Possivelmente, se a dona de casa N. M., mãe de um adolescente de 17 anos, não tivesse ambos de sobra, não estaria hoje comemorando a proximidade da libertação de seu filho. A luta da mãe para tirá-lo das drogas durou quatro anos. O sofrimento, quando percebeu que ele estava furtando para sustentar o vício, foi grande, mas ela não desistiu. O medo de que o filho, que cada vez mais se envolvia com más companhias, morresse, foi maior.
“Fiquei desesperada, não sabia o que fazer. Meu filho fugia de mim, não queria conversar sobre o que estava acontecendo. Então procurei ajuda na polícia. Os delegados e demais policiais me explicaram como eu deveria agir. Ele foi detido uma vez, mas logo saiu. Em março do ano passado, voltou a fazer coisas erradas. Liguei para o Ciodes e para a Deacle e abri as portas da minha casa que os policiais pudessem prendê-lo. Não me arrependo do que fiz. Meu filho está prestes a sair da Unis e hoje ele me agradece”, conta.
A mãe comemora o fato do filho estar fazendo planos para trabalhar e continuar estudando. “O filho dele nasceu há quatro meses e ele fala que pretende dar uma vida digna para todos nós. Hoje tenho orgulho de dizer que nunca desisti do meu filho”, conta N., enquanto relembra nas fotos o tempo em que toda a família já foi mais feliz.
“Não me arrependo do que fiz. Meu filho está outra pessoa agora”
N.,
Mãe do adolescente de 17 anos
Estado promete ampliar os serviços
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) promete ampliar a rede de apoio a dependentes químicos com cinco novos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) até o final do ano nos municípios de Cachoeiro, São Mateus, Nova Venécia, Castelo e Santa Maria de Jetibá. Segundo a psicóloga Inês Paes Torres, o investimento é de R$ 2,5 milhões. Também está sendo construído um pronto-socorro psiquiátrico em Cachoeiro, que vai funcionar 24 horas por dia para atendimento a portadores de doenças mentais e dependentes químicos. Hoje, apenas no Hospital São Lucas, em Vitória, existe este tipo de pronto-socorro.
“Estamos incentivando os municípios a investir, com repasse de recursos e capacitação de profissionais. Hoje, 46 dos 78 municípios possuem equipes de saúde mental que atendem a crianças e adultos”, disse. No entanto, o secretário de Saúde, Anselmo Tozi, reconhece que apenas o Centro de Tratamento de Toxicômanos de Vitória (CPTT), de Vitória, possui estrutura especialmente criada para crianças e adolescentes. “Estamos discutindo com os municípios a criação de um CAPS específico para tratar crianças e adolescentes.”
Os CAPS possuem equipe multidisciplinar para o atendimento dos dependentes e seus familiares. Hoje três mil pacientes estão em tratamento, e com a inauguração dos novos centros a capacidade passará para 4 mil.
Onde procurar apoio
CPTT - R. Alvaro Sarlo, s/n, Ilha de Santa Maria - Vitória
(27) 3132-5105
CAPS Vila Velha - Rua Castelo Branco, 1841, Jaburuna, VV
(27) 3239-9846 e 3239-9857
CAPS Laranjeiras, Rua Beethoven, 156, Laranjeiras, Serra
(27) 3328-4137 e 3328-4745
CAPS Anchieta - Rua São Pedro, s/n, Centro, Anchieta
(28) 3536-3657
CAPS Jõao Neiva, Av. Sete de Setembro, s/n, João Neiva
(27) 3258-3974, 3258-3642
CAPS Vargem Alta, R. Padre Antônio Maria, 210
(28) 3528-1689
CAPS São José do Calçado, Rua Romão Batista, s/n, Centro
(28) 3556-0352
CAPS São Mateus, Avenida Rotary Club, 346, Boa Vista
(27) 3767-8743
Álcool “turbina” ainda mais o risco para jovens
Daniela Souza
dsouza@redegazeta.com.br
Não é novidade para ninguém que a mistura álcool e direção é responsável por grande parte dos acidentes de trânsito. Mas entre os adolescentes o risco de se envolver em acidentes depois de ter bebido é ainda maior. Quem afirma é a médica especialista em farmacologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ester Nakamura Palácios.
“O álcool afeta as funções cognitivas e motoras de qualquer pessoa, mas entre adolescentes com menos de 18 anos o problema é ainda mais grave, já que neles esses sistemas ainda não estão completamente desenvolvidos. Por isso são mais vulneráveis mesmo se tomarem pequenas doses”, alerta.
Com isso, explica a especialista, alterações de visão, reflexos, perda da noção de tempo e perigo se tornam mais profundas. “Aquele pensamento de achar que dá tempo de ultrapassar outro carro fica mais evidente”, salienta.
Cerveja
A professora Ester Nakamura realiza pesquisas nesta área desde 2005. No mês que vem ela dará início a um novo estudo ouvindo estudantes do sexo masculino da Ufes com idade até 30 anos. “O objetivo é verificar o efeito de pequenas doses de álcool, como meia lata ou uma lata de cerveja, sobre as funções cognitivas necessárias para uma direção responsável”, explica.
Pais incentivam ilegalidade
A quantidade de menores que insistem em enfrentar o trânsito sem habilitação, colocando suas vidas e as de outras pessoas em risco, assusta. Em 2006 a Polícia Rodoviária Federal (PRF) autuou 842 pessoas inabilitadas ao volante. No ano passado este número passou para 1.127. O inspetor Edmar Camata estima que 10% desse total seja de adolescentes.
“Muitos não têm consciência do risco que estão assumindo e do problema para quem é flagrado dirigindo sem habilitação. A lei prevê punição para quem permite que uma pessoa inabilitada assuma a direção e para quem dirige nesta condição, mesmo que esse seja menor”, destaca Camata.
A irresponsabilidade desses menores, às vezes com o consentimento dos pais, não afeta só a eles. Segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), em 2005, dos 1.113 condutores envolvidos em acidentes com vítimas, 13 tinham 17 anos ou menos. Em 2006, 14 menores machucaram ou mataram alguém enquanto dirigiam em um universo de 1.216 condutores.
Fascínio por carros
Mas porque tantos adolescentes querem dirigir antes dos 18 anos? A pesquisa “O Jovem e o Trânsito” feita pelo Instituto Ibope no ano passado com mil jovens de 16 a 25 anos revelou que os pais têm culpa nesse fascínio dos filhos pelo carro.
Mais de 50% dos entrevistados disseram que aprenderam a dirigir com o auxílio do pai, e 8% da mãe. E mais: 20% dos menores já dirigiram veículos, na faixa etária entre 16 e 17 anos. Destes, 60% com o aval dos pais.
Álcool aumenta número de meninas vítimas
Uma pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que o número de mulheres jovens que morrem em acidentes de trânsito no país aumentou nos últimos cinco anos. O estudo aponta que as mortes podem ter ligação com o crescimento do alcoolismo. Entre 2001 e 2005 o número de meninas entre 12 e 17 anos que ingerem bebida alcoólica com freqüência quase dobrou - passou de 3,5% para 6%. Entre as jovens de 18 a 24 anos o percentual passou de 7,4% para 12,1%. Neste mesmo período o número de mulheres mortas em acidentes passou de 5.682 para 6.805, um aumento de 19,8%. O alcoolismo também cresceu entre os rapazes: de 12 a 17 anos, passou de 6,9% para 7,3% e na faixa de 18 a 24 passou de 23,7% para 27,4%.
Ele aprendeu a dirigir aos 10 anos com o pai
O universitário Luiz Augusto Mill Júnior, de 29 anos, aprendeu a dirigir aos 10 com o pai. “Ele me ensinou dentro da propriedade que minha família tem em Marechal Floriano e nas estradas de chão que dão acesso a ela. Na roça o comércio fica muito longe e muitas vezes eu precisava comprar alguma coisa para minha mãe. Na cidade não dá pra fazer isso porque tem trânsito”, explica. Luiz Augusto não acredita que o pai tenha cometido um erro. “Isso me ajudou muito porque hoje dirijo muito bem. Quando tiver um filho penso em fazer o mesmo porque quando se ensina logo cedo a pessoa tem mais facilidade para aprender. Quem deixa para dirigir só depois de adulto tem mais dificuldade”, justifica.
Análise
“Veículo é como arma”
Timóteo Camacho
Antropólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
“A necessidade que os adolescentes têm em aprender a dirigir faz parte da cultura de países subdesenvolvidos, como o Brasil. As pessoas sentem que o veículo é um instrumento de poder, como se fosse uma arma. Pensam que quem tem um carro e sabe dirigir muito bem está em uma posição superior, é melhor que os outros. Outro problema é o machismo, que no Brasil ainda é muito forte. O pai costuma estimular o filho homem a dirigir o mais cedo possível, com 12, 13 anos. Ora, se o adolescente aprende, ou acha que aprendeu a dirigir, ele vai querer colocar seus conhecimentos ao volante em prática sempre que puder. Pensa: ‘se já sei, porque tenho de esperar até os 18 anos?’. Por isso os pais são os maiores culpados. Há também pessoas que fazem do carro um prêmio. Prometem dar um veículo de presente caso o jovem passe em um vestibular, quando estudar e passar é uma obrigação”
Menor que dirige pode até ser internado
Se você tem um filho com menos de 18 anos, é melhor deixar a chave do carro bem longe dele. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê uma série de medidas, inclusive internação, para menores detidos dirigindo. O dono do veículo, mesmo não sabendo que o filho “pegou o carro emprestado” vai ter muita dor de cabeça. Os artigos 163 e 164 determinam multa de R$ 574,00, apreensão do veículo e retenção da carteira de habilitação para quem empresta ou entrega a direção a pessoa inabilitada. Se ocorrer acidente, a situação se complica. O menor, e o pai, respondem por lesão corporal ou homicídio culposo.
Para educar com menos risco de errar
Especialista aponta situações em que se deve dizer “não” aos filhos e quando é melhor até adiar a conversa
Fonte: Site da educadora Tânia Zagury (www.taniazagury.com.br), mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, filósofa, pesquisadora em Educação e com 13 livros publicados sobre o tema
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Gostaria de perguntar a essas pessoas metidas a sabias como psicologos ,socioligos se nenhum deles teve problemas com algum de seus filhos?Pois certa vez vi uma reportgem de uma mae ‘psicologa’ que dizia não saber mais o que fazer com o seu filho ,sera´ que ela não conversou com o mesmo?Acredito que sim.Depois que inventaram essas leis fajutas voces ja notaram que a criminalidade aumentou?Ou não? Por isso eu digo ,a todos voces,se voces não corrigirem seus filhos hoje ,amanha a policia corrige.Disso voces podem ter certeza.