Apr 03 2008
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Mar 27 2008
O melhor é agir
Alexandre Garcia
O melhor é agir em vez de ficar discutindo de quem é a responsabilidade, de quem é a culpa ou quem deve combater a dengue. Era preciso ter agido no mínimo, desde o ano passado, quando a dengue era recordista. Desperdiçou-se o tempo e não se deu importância aos recursos necessários para evitar mortes.
E agora as autoridades desperdiçam ainda mais tempo ao discutir responsabilidades pelo mosquito da dengue. Será que vai servir a lição? A história mostra que não. Quando passar a dengue, vai se mudar de assunto.
Será que o ano que vem vai ser pior? Um especialista no assunto diz que também faltou a participação da população na eliminação dos focos do mosquito nos quintais das casas, nos vasos dos apartamentos, na praça e na calçada em frente à residência, no recipiente jogado na rua.
Mas, em ano de eleição municipal, os políticos não vão falar nisso e se indispor com eleitores. E aí antecipam a campanha procurando responsabilidades entre os adversários.
A Constituição, no artigo 196, diz que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Mas muito antes, no artigo 23, inciso dois, estabelece que cuidar da saúde e assistência pública é competência comum da União, do estado e do município.
Como houve falta de todas as partes, mesmo que as mortes do ano passado tenham dado todos os avisos para que neste verão houvesse mais prevenção, voltou com mais força o mosquito de nome greco-romano, que significa “o odioso do Egito”.
Mar 23 2008
“Você quer transar comigo?”
Não podemos ser transformados em eternos joguetes à disposição de um negócio, ser tratados como gado passivo a caminho de um matadouro pseudocultural.
Quem me trouxe o bilhete, escrito com uma inconfundível letrinha infantil, foi meu filho Lipe, de 6 anos: “Mariana, te amo muito. Você quer transar comigo? Ronaldo”.
O menino achara o papelzinho num canteiro de flores, no pátio da escola em que estuda. Ao redor, crianças da idade dele ou um pouco mais velhas brincavam inocentemente. (Os nomes dos protagonistas desta novela mirim são fictícios, para evitar pânico nos pais.)
Por alguns instantes, coloquei de lado as minhas convicções liberais e a formação de jornalista, à prova de preconceitos, para me posicionar apenas como pai. Não sou especialista no assunto nem tenho a pretensão de tratar aqui do tema da sexualização infantil anacrônica.
Então, o que me moveu a escrever?
Bem, pensei, com que direito estão roubando de meninos e meninas inocentes o direito de descobrir por si próprios e na hora certa os grandes segredos e prazeres da vida? Quem deu a essa gente procuração para discutir sexo com nossos filhos de maneira tão consumista e degradante?
Perplexo, ainda fui buscar argumentos que justificassem a banalização sexual precoce de crianças tão pequenas. Não encontrei. No lugar, vi-me diante de um grande vazio. Tive a terrível sensação de que não conseguiria parar sozinho esse rio. Vivi a frustração de lutar contra essa torrente poderosa que, por onde passa, derruba conceitos, princípios, éticas e valores.
Vamos colocar os pingos nos is. Cabe à mídia – e em especial à televisão brasileira – o primeiro movimento. É preciso dar um basta a essa situação. Não é possível que, por conta de alguns pontos na audiência, a sociedade toda – homens, mulheres, crianças – seja bombardeada por uma erotização irresponsável e idiota. Não podemos ser transformados em eternos joguetes à disposição de um negócio, ser tratados como gado passivo a caminho de um matadouro pseudocultural, numa indústria que há muito perdeu o prumo e vendeu a alma ao diabo.
A resposta a essa situação passa por pelos menos dois fatores. O primeiro é lembrar aos responsáveis pelas mídias que assim agem que também fazem parte desta sociedade. Eles não podem esquecer os próprios filhos, sobrinhos, netos que, neste instante, estão sendo vítimas do lixo sexual que despejam diariamente em milhares de casas.
O segundo elemento, e talvez o mais importante, chama-se responsabilidade social. Ao contrário da maioria das corporações, que dia a dia progridem no conceito de entender que uma organização não visa apenas o lucro, mas também o bem-estar da sociedade que a acolhe, as empresas de mídia de uma forma geral se acomodaram. Preferem se colocar confortavelmente na posição de espelhos (que, dependendo da qualidade, por vezes distorcem a realidade). Acostumaram-se a não intervir e a não colaborar para o aperfeiçoamento do sistema do qual fazem parte e de onde tiram seus proventos. Por isso, adotando uma linguagem televisiva, caros dirigentes de TVs, está na hora de abandonarem a posição de espectador e se tornarem protagonistas do programa.
Esta é a minha contribuição. Eu me convenci de que, se alguém não falar, será no mínimo uma voz a menos. E de que nada será feito para mudar. Por tudo isso, vale a pena lançar o libelo. Quem sabe, um dia, outros virão. E aí, sem pretensões, poderemos formar um exército. Aí, sim, vamos fazer a maior diferença!
Fábio Steinberg
Equívoco passado de pai para filho
Há duas semanas, Fábio Steinberg escreveu em “Outras Idéias” sobre a responsabilidade da mídia na erotização infantil. Ele estava indignado – e com razão – com a programação televisiva, sempre carregada de sexo, de muito sexo, o que aumenta consideravelmente a audiência. Bem, quero aproveitar a deixa do Fábio e apimentar um pouco mais essa importante discussão e, para tanto, relembro o bilhete que ele citou, de uma criança de pouco mais de 6 anos: “Mariana, te amo muito. Você quer transar comigo? Ass: Ronaldo”. Qual a parcela de responsabilidade que nos cabe nesse processo louco de priorizar o sexo acima de quase tudo, em que as crianças são as maiores vítimas?
Existe um bate-papo que faço semanalmente, pela Internet, com adolescentes e adultos a respeito da sexualidade, os jovens estão quase sempre às voltas com a descoberta da sexualidade e com a força de seus impulsos. Mas uma coisa em especial me chama a atenção: a confusão que os jovens fazem entre afeto e sensação física.
Cada vez mais, eles se importam muito com as sensações e pouco com os afetos; cada vez mais, eles se ligam ao outro mais pelos atributos físicos que ele tem e menos pelas idéias e posturas de vida que apresenta; cada vez mais, intimidade significa tirar a roupa e expor o corpo ao namorado ou à namorada, e menos conversar e expor afetos e pensamentos. E, à semelhança do garotinho autor do bilhete que Fábio citou, confundem afeto com sexo.
Ouço freqüentemente garotas justificarem uma transa inconseqüente, do ponto de vista delas mesmas, pelo que ela chamam de “carência afetiva”, seja lá o que signifique isso. O ponto é que, em busca de afeto, elas encontram sensação. E como eles sofrem com essa confusão, com esse grande equívoco! Mas eles aprendem isso apenas olhando à televisão?
Claro que não! Eles aprendem isso também – e principalmente – observando a vida dos adultos que os cercam, assistindo ao modo de viver da sociedade adulta de que estão prestes a fazer parte. O fato é que vivemos, atualmente, uma vida mais sensacional e menos afetiva. Para ilustrar: Recentemente recebi uma mensagem de um leitor que dizia que o sentido da vida é buscar satisfação para nossos impulsos.
Pois é justamente isso o que muitos adultos têm feito. Ouço, com freqüência, cada maior, depoimentos de adultos a esse respeito: eles dizem que, apesar de bem casados e do afeto que têm pela mulher ou pelo marido, não conseguem resistir à atração erótica que sentem pelas outras pessoas. É a primazia dos sentidos. Claro que é mais fácil nos checarmos quando a expressão desse modo de viver aparece em uma criança ou nos adolescentes. O problema é que nem sempre nos damos conta de que eles têm em quem se espelhar.
Por que será que, apesar de muitos compartilharem da mesma indignação que Fábio expressou em seu texto, poucos fazem algo de concreto contra essa programação tão sensacional dos programas de televisão? Não creio que seja apenas passividade ou impotência. Parece-me mais cumplicidade.
Talvez a vida moderna, com todas as suas características e complexidades, favoreça e estimule esse modo de viver. Mas, se tantos são contra, se tantos são críticos a esse respeito, por que não mudar, por que não resistir?
É essa a pergunta que faço sempre a pais e educadores escolares quando eles criticam determinados comportamentos sociais a que os filhos ou alunos estão submetidos. Mas sempre ouço a mesma resposta: a maioria age e pensa assim.
Pois então: será que não fazemos parte dessa mesma maioria que criticamos?
Talvez possamos, refletindo desse modo, favorecer e facilitar a mudança de rumo das coisas. Quem sabe, assim, o bilhete do garoto poderia ser bem diferente:
“Mariana, te amo muito. Você quer conversar comigo? Ass: Ronaldo”.
Autor: Rosely Sayão
Psicóloga e Consultora em Educação
26 de abril de 2001 – Publicado no jornal A Folha de São Paulo
Mar 20 2008
A inocência e a violência
Flávio Fogueral
Violência. Esta palavra é definida de uma maneira tão singular por dicionários, livros, mas que na vida real toma proporções e significados que chocam; faz-nos refletir sobre o mundo em questão, sobre as pessoas. Sobre nós mesmos.
Violência. Um vocábulo atribuído ao uso da força física, ação de intimidar alguém moralmente ou o seu efeito, ação freqüente destrutiva, exercida com ímpeto e força.
Todos os dias fatos ilustram os significados da palavra. Guerras, fome, humilhação, brigas de torcida, roubos, seqüestros, miséria, tortura, estupro. Ou fazer com que a inocência desapareça quando um rosto é esbofeteado por uma mão, um cérebro sem controle. Um corpo sem consciência ou alma.
Um destes exemplos da crueldade aconteceu em Goiás na última semana. Ganhou grande repercussão na mídia e a população, indignada, comenta sobre o ocorrido. Espanta pela crueldade como a menina era tratada por quem, na verdade, deveria lhe dar abrigo e condições para se ter um futuro melhor.
A garota, de apenas 12 anos, havia sido adotada pela empresária Sílvia Calabrese. Prometida aos pais um local e condições melhores para ser criada e a possibilidade de estudar, a menina encontrou uma realidade totalmente diferente do imaginado. O que era para ser um salto para seu futuro, encontrou apenas dor e sofrimento, traduzidos em sessões de torturas feitas por quem a tirou da casa dos pais.
As cenas, mostradas à exaustão pela televisão, em sua incansável busca de tornar sensacional o fato, revelam como a crueldade do ser humano pode tomar proporções chocantes. A menina, violentada, mostrada como sua língua ficou após receber castigos com alicates e metais cortantes. Desfigurou-se a parte do corpo. Mais chocantes eram as imagens feitas pela própria policia, ao chegar à casa da empresária. Com as mãos amarradas, a vítima era mantida a maior parte das vezes presa na área de serviço da residência. Com a ilusão de que iria ajudar na limpeza da casa, fazia a maior parte dos serviços tarde da noite e também na madrugada. Era obrigada, quando visitada pela mãe, a usar blusas para esconder as marcas de queimadura feitas pelo ferro de passar roupa e dos hematomas, provenientes das agressões da empresária. O mais surpreendente eram as declarações da vítima, que ainda relatava ser obrigada, muitas vezes a comer e beber fezes e urina, respectivamente, dos cães da casa. No relato de terror, a criança alegava que as agressões aconteciam há mais de dois anos e mostrava, em muitos momentos, as marcas que ficaram em seu corpo. Muitas delas, a vítima levará pelo resto da vida, para se lembrar de como podemos ser selvagens, a qualquer momento, por motivos banais. Isso faz com que o homem passe da linha do racional para o que o torna o mais cruel dos animais.
Através de uma denúncia anônima, a polícia goiana encontrou um caso que chocou até mesmo a quem está acostumado a crimes hediondos. Não foi difícil, ver a delegada responsável pelo caso, dar declarações emocionadas à imprensa. A história culminou com a prisão da empresária e também da empregada, que deve responder por encobrir e não denunciar o caso. Além disso, o marido da empresária, que alega não ter conhecimento do que acontecia, também será investigado. Ele relata que o comportamento da mulher era temperamental e que desconfiava que algo acontecia quando viu a menina com um dos dentes quebrado.
Isso nos faz refletir como o comportamento do ser humano, em muitos casos, é inexplicável. Injustificável. Selvagem e sem nexo em uma sociedade que banaliza a própria violência. Há alguma explicação plausível para o comportamento da empresária? Do marido e empregada coniventes com a tortura? Creio que não.
Tais casos todos refletem como o comportamento humano pode tomar proporções que beiram o inexplicável. Tortura, estupro, pedofilia, miséria, falta de perspectiva ou o simples descaso dos pais com relação à educação e o futuro da criança ilustram uma realidade cada vez mais vergonhosa. Não é somente em Goiás, mas em todos os cantos do mundo casos assim transformam e mudam vidas todos os dias.
Mas no meio de tanta dor, decepção e de violência, a mais tênue esperança vem das próprias vítimas. Seja pela força interna ao resistir, como de criar expectativas de um futuro melhor. A criança, torturada, após relatar tanta barbárie contra ela, não deixou de sonhar. E o que ela falou a quem quiser ouvir, mostra uma reflexão nas mais adversidades. “Quero ser feliz de novo, com meus pais. E também ganhar uma bicicleta”, é o que quer a menina, agredida, amarrada, torturada e agora consciente de que as pessoas podem ser mais selvagens do que imaginamos.
Mar 18 2008
Meninas Perdidas
Marcos Fernandes *
“Menina Perdida” foi a expressão utilizada pelo advogado de José Maria dos Santos acusado em 1904 de ter molestado Olívia Silva Lisboa então com 15 anos de idade, no Rio de Janeiro. Olívia estaria nesta condição por que perdera a virgindade com esta idade e também foi encontrada “sem mãe” e com um pai que não cuidava de seu futuro segundo o advogado do acusado “abandonada aos instintos perversos de que geralmente é dotada a mulher sem educação.” A perdição da menina Olívia estava além da sua vontade e de seu controle.
A devassidão dos costumes, os instintos perversos, a falta de honra e de educação, a inclinação à malícia, e a liberdade foram expressões que marcaram os julgamentos de médicos, jornalistas, membros do clero, literato sobre as moças pobres, negras e brancas, principalmente ao longo dos últimos 150 anos de nossa história. Para muitos estes olhares são associados a pobreza e a mestiçagem inviabilizava as condições mínimas para a existência dos atributos de moralidade.
Apesar da idade definir a condição de menoridade das ofendidas as moças defloradas eram tratadas como pessoas adultas pelos seus pares e também diante ao júri. Elas eram oriundas de setores populares da sociedade que também as tratavam da mesma forma. Sendo que para os primeiros estas meninas-mulheres já estavam perdidas.
Na época a referencia principal para o modelo de vida sexual e amorosa difundido eram os comportamentos recomendados para as famílias mais abastadas da sociedade. Ou seja “um sadio ambiente familiar, lar acolhedor, filhos educados e esposa dedicada ao marido e aos deveres do lar.” As mulheres neste meio podiam freqüentar o espaço público, porém deviam fazê-lo de forma educada . Antes de tudo elas eram a base moral da sociedade e as responsáveis pela formação de uma descendência saudável, utilizando-se da vigilância do comportamento das sua filhas e de seus filhos.
Fazer valer estes valores em uma sociedade heterogenea se mostrou tarefa quase impossível devido a mistura de costumes e de povos formadores da sociedade brasileira da época. Mesmo assim o código penal foi criado justamente para introjetar estes costumes de origem européia na sociedade recém saída da escravidão. Assim crimes sexuais eram punidos severamente. Justamente por que atentavam a estes bons costumes. O código penal de 1890 já citava de forma separada os crimes de defloramento e estupro como sendo os principais contra a honra da mulher. Mas mesmo assim a jurisprudência era amplamente utilizada para a interpretação destes crimes pelos Juristas da época. Então isto gerava muitos problemas, por exemplo: O conceito de virgindade (física ou moral) e também de honestidade das mulheres.
Então a jovem que desejasse alcançar o estado de ofendida deveria tecer grandes argumentos a cerca de sua honestidade , sendo que esta sempre estaria enfrentado conceitos e paradigmas extremos da época, entendidos pelos juristas da mulher/mãe e seu inverso da “maldita prostituta”. Assim o estado anterior de virgindade física, exigência básica e material para a comprovação de um crime de defloramento, só ficava garantido com o exame do comportamento moral da pretença ofendida.
Era aí que as moças pobres mostravam o fracasso da política de controle sexual e moral da sociedade Brasileira da época e por isso mesmo defloradas (e muito jovens) eram acusadas de serem prostitutas ou exploradoras de homens ricos. Por que elas tinham um padrão de vida amorosa diferente daquele defendido pelo estado e também entendido pela justiça da época.
Somente a partir de 1920 que a sedução se tornou fator fundamental para a tipificação do crime de defloramento e também passou a se notar mais a inexperiência sexual das moças para a análise destes casos. O código criminal de 1940 excluiu o crime de defloramento e o substituiu pelo de sedução e passou e estipulou e precisou a idade da inexperiência sexual como sendo dos 14 anos os 18 anos: “Seduzir mulher virgem, menor de idade de 18 anos e maior de 14 e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança”.
Embora as imagens de “mulher honesta” e da mulher prostituída tenham permanecido como paradigmas no discurso jurídico e na prática de produção de culpados e inocentes, diminuiria muito a distância entre elas. Reconhecendo a inexistência de um corpo ideal e puro; admitindo que as jovens possuíssem instintos sexuais e permanecessem honestas.
* Graduado em História pelo Centro Universitário de Belo Horizonte / Administrador do Brasil Contra a Pedofilia.
Mar 14 2008
A ameaça do tráfico de pessoas
*Antonio Carlos Pannunzio
Explorado por quadrilhas internacionais, muito bem articuladas, o tráfico de pessoas é uma ameaça real e crescente em diferentes pontos do mundo. Ele se faz sentir, de um modo particularmente preocupante, na América Latina.Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a cada ano, nesta parte do mundo, 250 mil pessoas – mulheres, homens, crianças – são vítimas do tráfico humano. O mesmo levantamento estima que uma mulher ou adolescente explorada na prostituição rende, por ano, R$ 30 mil para aqueles que a exploram. As pessoas usadas em trabalhos forçados, que as reduzem na prática à escravidão, rendem, cada uma, R$ 5 mil anuais.
Excelente fonte de renda para o crime organizado que as exploram, as vítimas do tráfico de pessoas acabam por se converter, involuntariamente, numa fonte de atritos indesejáveis entre países e blocos de nações. Um dos elementos em que se funda a arbitrária retenção e deportação de brasileiros em trânsito pelo aeroporto de Barajas, em Madri, é um estudo concluído em junho de 2007 pelo governo espanhol, no qual se constatou que 70% dos adultos e adolescentes que se dedicam à prostituição masculina, naquele país, são brasileiros.
No âmbito do Mercosul, um combate mais eficiente ao tráfico de seres humanos tem sido impossibilitado pela inexistência de uma melhor sintonia entre legislação dos países que o integram.
Participando, esta semana, de uma reunião da Representação Brasileira para o Mercosul, nela defendi a necessidade de que aquele colegiado pressione as presidências da Câmara e do Senado para obter a aprovação de um projeto que apresentei em 2003, o PL 2375, tipificando o tráfico de seres humanos como crime. A proposta, segundo a coordenadora do Projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da OIT, advogada Thais Dumêt Faria, está entre aquelas que aquele organismo internacional deseja ver aprovadas.
Além de criminalizar todas as formas de tráfico de pessoas, ele penaliza, também, o crescente tráfico de órgãos. Desse modo, dá eficácia, no plano interno, ao Protocolo de Palermo, do qual o Brasil é signatário, que também trata dessa questão. Aquele acordo internacional tem tido pouca aplicação em nosso país pela ausência de uma norma interna que o transporte do plano das declarações bem intencionadas para os das normas plenamente eficazes e passíveis de aplicação pelos tribunais.
Hoje, por falta de legislação adequada, a vítima do tráfico de pessoas é, na maioria das vezes, tratada pelas autoridades como um imigrante em situação irregular. Isso as torna duplamente vítimas: depois de haverem tido seus direitos lesados pelas quadrilhas que as arrastaram à prostituição ou ao trabalho escravo, são punidas, de forma imerecida, pelas autoridades policiais e de imigração, em vez de delas receberem um tratamento digno e minimamente justo.
É necessário mudar essa realidade e dar, à terrível questão do tráfico de pessoas, uma legislação atualizada e abrangente, que contemple não apenas os delitos contra adolescentes e mulheres destinadas à prostituição, mas também aqueles contra homens e mulheres reduzidos a condições similares às dos escravos por força do trabalho degradante, e contra crianças, freqüentemente utilizadas como se ”bancos de peças de reposição” pelo tráfico de órgãos.
Em paralelo ao reforço da legislação, impõe-se uma vigilância maior sobre vias de comunicação hoje insuficientemente controladas pelas autoridades. No caso do Mercosul, a OIT recomenda uma vigilância especial sobre os numerosos rios e hidrovias, pelos quais transitam, sem obstáculo, embarcações utilizadas pelos que traficam seres humanos.
O tráfico de pessoas é uma das manifestações mais cruas da brutalidade a que podem chegar indivíduos e grupos que, tendo abdicado de qualquer padrão ético, desrespeitam sistematicamente a intrínseca dignidade do ser humano. Ele ocasiona, em todos aqueles que não desejam que o mundo regrida à mais absoluta barbárie, um profundo sentimento de repulsa e uma forte indignação.
É indispensável que essa rejeição não fique limitada ao plano dos sentimentos, mas seja respaldada por uma legislação atual, que torne possível ao Brasil dar combate vigoroso à mercancia infame e, talvez, definir um paradigma penal possível de ser assumido pela legislação dos demais estados do Mercosul.
*Deputado Federal, ex-líder do PSDB na Câmara
Mar 08 2008
O Mundo nas mãos das Mulheres
Nada tenho contra os homens, que fique bem claro! Mas que as mulheres estão cada vez mais se infiltrando em todos os segmentos da sociedade, e deixando suas marcas, não se pode negar. Venceram pelos próprios méritos e adquiriram sua independência financeira.
Profissões exclusivamente masculinas estão abrindo espaço para o sexo frágil (frágil?). Mulheres dirigem ônibus, caminhões, tratores e aviões. Está comprovado estatisticamente que são mais cuidadosas e se envolvem bem menos em acidentes, pois não costumam dirigir embriagadas e sabem que transportam “cargas preciosas” como bebês e crianças maiores nos bancos dos seus carros. Prova dessa capacidade é o polpudo desconto do seguro-carro para mulheres com mais de quarenta anos, o que leva muitos homens a passarem o carro da família para o nome de suas esposas.
Mulheres são mais sensíveis, mais compreensivas, menos egoístas, mais éticas e agem mais pela emoção do que pela razão. O instinto materno nelas é muito forte e costuma aflorar nos julgamentos. Não perdem jamais a capacidade de se indignar.
Nas prisões e Febems o número de mulheres que cumprem penas é sempre muito abaixo do contingente masculino.
Crimes passionais, pedofilia, estupro e maltratos a crianças e animais, sempre são liderados por indivíduos do sexo masculino.
Que estes dados não acirrem uma “guerra” entre os sexos, apenas servem para demonstrar que a mulher pode exercer qualquer cargo com inteligência e capacidade.
Geralmente as mulheres são mais generosas, mais misericordiosas e detestam injustiças. Acostumadas a botar ordem na casa, transportam esse dom ao trabalho.
Acostumadas a botar ordem na casa, transportam esse dom ao trabalho. Também habituadas a administrar o orçamento doméstico, fazendo o salário render até o último centavo, saem-se muito bem nesse quesito quando têm que reger uma cidade ou um país.
O Chile elegeu uma mulher como presidente. Os machistas de plantão já torceram o nariz: “Mulher na presidência? Não vai dar certo!”. Os Estados Unidos também têm grandes chances de colocar uma mulher no comando. E por que não dar uma chance às mulheres? Se presidentes homens estão deixando tanto a desejar?
Em muitos segmentos, as mulheres vêm deixando seu recado com muita competência, habilidade e determinação.
Mas acredito mesmo, que o mundo tenha que ser governado em dupla, mulheres e homens de mãos dadas, caminhando lado a lado, se respeitando. Que não haja egoísmo e ambos pensem no coletivo e não em ganhos e vaidades pessoais.
Os esquecidos valores morais e espirituais têm que ser resgatados e enraizados nas crianças desde tenra idade. Só esse resgate trará de volta a honestidade e a vergonha na cara que muitos perderam, independente de serem homens ou mulheres.
E viva o salto alto, a meia-calça, o rímel e o batom!
Ivana Maria França de Negri - escritora
Mar 03 2008
Banalização do sexo garante audiência, mas confunde brasileiro
“Uma adolescente seduz um homem mais velho e casado; uma repórter pergunta a um pedestre - sem constrangimento - se o tamanho, no caso do pênis, é documento; uma personagem, só de biquíni, dança sensualmente para excitar os rapazes. Não. Não se trata de um canal erótico. Diariamente, é possível ver e ouvir sobre sexo - sem qualquer restrição quanto à abordagem ou ao horário - em todo canal de TV ou meio de comunicação. A sexualidade há muito, deixou de ser um assunto tratado a sete chaves. Muitas vezes, as cenas picantes estão no ar na hora do almoço”.
Nos últimos anos, a sexualidade ganhou a mídia e deu ibope, garantindo um espaço cada vez maior. Médicos, sexólogos, terapeutas, psicólogos e psicanalistas vêem a questão com ressalvas. “A informação é o caminho da aprendizagem. O detalhe que observamos é que faltam critérios para sua difusão. Poucos programas divulgam informações realmente científicas”, alerta a terapeuta sexual Mary de Sá.
A terapeuta acredita que a possibilidade de discutir o assunto na mídia é um bom sinal, que enterrou a repressão com que o tema era tratado anteriormente. Mas falta bom senso, já que o sexo está sendo cada vez mais banalizado. “A mídia tem sido um estímulo para que crianças e adolescentes cheguem ao sexo sem estarem preparados. Para os adolescentes, faltam referências”, lembra a terapeuta.
Nas novelas, uma das grandes fontes de entretenimento dos brasileiros, as cenas são baseadas na realidade, mas com desfechos bem diferentes dos vividos todos os dias pelas pessoas comuns. A gravidez precoce e a prostituição parecem bem mais suaves e menos problemáticas.
“O corpo é mostrado como uma forma de ganho. Sou favorável às discussões apresentadas pela TV, mas acho que o conteúdo e a forma como elas são colocadas são assustadores. Poucos programas têm uma abordagem educativa do assunto”, afirma Mary de Sá. Uma das esperanças da terapeuta é que o passar dos anos aperfeiçoe os modos de abordar a sexualidade.
“A menina na novela transa com o namorado e logo aparece grávida. O fato de estar apaixonada é mais importante do que todos os outros fatores. Como a TV tem um papel importante na formação da opinião pública, esse episódio deveria ser usado como uma forma de reforçar a importância da camisinha e da prevenção da aids e da gravidez. Entretanto, os critérios usados para tratar o assunto são contraditórios e trazem confusão. Quem é virgem, por exemplo, entra em um conflito ao assistir cada capítulo”, lembra.
A psicóloga e psicanalista Sônia Cury acredita que a sexualidade está sendo tratada na mídia de uma forma vulgar. A questão não está apenas nas novelas, filmes e revistas, chegou também aos programas de entrevista. “Até certo ponto, a mídia contribuiu para o assunto ser tratado sem repressão. O detalhe é que os programas passam a qualquer hora. As crianças vêem e não entendem”, critica a psicanalista.
Os resultados deste contato precoce com o assunto traz conseqüências. Não é incomum que os pais cheguem aos consultórios com muitas dúvidas. “A criança quer dar um beijo ‘de língua’ na boca e pede isso à avó. Os pais ficam sem saber como resolver a questão”, exemplifica. Como a criança fantasia muito, o sexo pode ser encarado de forma desvirtuada.
“Não existe preocupação em informar. O conteúdo apresentado na mídia é meramente apelativo”, lembra. As personagens eróticas dos programas dirigidos aos jovens chamam atenção para outro tipo de sexualidade: a que não valoriza a pessoa integralmente, mas apenas partes do seu corpo - “peitos e bundas” é que contam.
Para os adolescentes, o estímulo da mídia não gera apenas vontades, mas leva às ações. A cada dia, os jovens transam mais cedo, sem atentar para os riscos de doenças e da gravidez. “A censura não resolve, mas é necessário ter mais bom senso”, sugere Cury.
A sexualidade tratada de forma banal não prejudica apenas crianças e adolescentes. Muitos adultos apreendem o que é apresentado na mídia sobre o sexo. “As pessoas criam mitos e querem ter orgasmos múltiplos como a mídia afirma ser o ideal. O sexo da TV é mostrado como algo de outro mundo”, afirma a psicanalista.
Como entre quatro paredes, tudo não ocorre como na mídia, as pessoas se angustiam. “A pessoa faz superexigências a si mesma e à sua performance. Nesses casos, o melhor é conversar”, orienta a psicanalista.
A terapeuta Mary de Sá acredita que, apesar das abordagens incorretas, proibir que crianças e adolescentes assistam é pior. “Proibir estimula. O ideal é dialogar sobre o assunto. Se isto não é possível, os pais devem procurar ajuda para não repetir em casa a repressão que viveram durante a própria formação”, orienta.
Para a terapeuta, a sexualidade está sendo tratada com liberdade. No entanto, a mídia não oferece informações suficientes para que o jovem desfrute do sexo com consciência. “Precisamos da qualidade da informação. Caso contrário, ao invés da divulgação ajudar, ela pode deturpar o assunto e desorientar as pessoas”, conclui.
Sônia Cury concorda que o diálogo dentro de casa é a melhor opção. Entretanto, a correria e a falta de tempo dos dias atuais têm impedido que isto ocorra entre pais e filhos. “Não adianta proibir ou deixar de assistir. Isto pode despertar ainda mais a fantasia de cada um. O assunto precisa ser encarado. O que ocorre, às vezes, é que o diálogo esbarra em alguma área em que os próprios pais foram reprimidos. Daí, a situação não se resolve. Não podemos nos esquecer de que o ‘não-dito’ é muito pior”, adverte.
TV não é babá
Jorge Schemes
O ambiente familiar é extremamente importante na formação da personalidade e caráter infantil. Para isso as etapas do desenvolvimento infantil precissam ser respeitadas e devidamente estimuladas. Todavia, atualmente parece que não existem mais crianças, no sentido literal da palavra, pois a televisão parece ter envelhecido e amadurecido precocemente a todas elas. Muitas dessas crianças, já não têm mais seus pais, pois foram adotadas pelos apresentadores e “heróis” da televisão, os quais são imitados e copiados em questões de moda, costumes, comportamento, valores e até mesmo crenças ideológicas.
Parece que nos lares de nosso século já ocorreu uma transferência de responsabilidade no que diz respeito a educação dos filhos. A televisão se tornou a grande babá, o “remédio” para toda criança chorona, a conselheira mais íntima, a grande saída para pais que já perderam o controle da situação. Porém, é bom lembrar, que nada substituí a responsabilidade que os pais têm perante a criação dos filhos.
É muito fácil para a família desenvolver um estilo de vida em que se usa a TV como se fosse uma babá que “cuida” das crianças enquanto os pais se ocupam de outras atividades dentro ou fora de casa, porém é bom lembrar que o uso da TV como babá regular pode levar a sérios problemas.
Psicólogos têm chegado a conclusões alarmantes sobre a importância de estimular todo o potencial de desenvolvimento do cérebro infantil, principalmente nos primeiros anos de vida. Todo estímulo deve ser feito pelo contato direto dos pais com a criança, nada pode substituir essa relação interacionista e afetiva-emocional. Esse contato é fundamental para a saúde psicológica dos filhos e seu desenvolvimento. Pesquisas revelam que o cérebro só se desenvolve com estímulos, e o melhor estímulo para uma criança é brincar. Porém, o mais importante não é se o brinquedo é caro ou não, nem mesmo o tipo de brinquedo em si, mas o ato de brincar, ou a brincadeira.
Uma simples sucata na mão de uma criança pode se transformar num brinquedo. É brincando, e não assistindo à TV, que as crianças desenvolvem a imaginação e as relações humanas.
Fontes: Boa Saúde e Edu_Mídia
Especialistas desaconselham Big Brother para crianças
Classificação indicativa para os programas de TV: Manual da Nova Classificação Indicativa
Mar 01 2008
Orientação sexual em casa ou na rua?
Dr. Luiz Machado
Adolescente –”Eu tenho vontade de me aproximar das garotas, mas não sei conversar com elas”.
Pai – “Ora! É muito fácil. Fale sobre futebol, música e viagem. Faça como estou dizendo”.
Certos assuntos médicos, que vivenciamos no dia-a-dia, muitas vezes servem de exemplo para outros, e aqueles que lêem os artigos acabam se utilizando deles para agir no seu cotidiano.
Com freqüência somos procurados por pais preocupados com a fase da adolescência, principalmente quando necessitam falar de sexo com os filhos ou quando têm filhas, que a dificuldade se torna maior.
O assunto veio à tona, quando no meu ambiente de trabalho, recebi a visita de um amigo, que veio procurar minha ajuda, porque estava inseguro em conversar com seus filhos a respeito de sexo. Esta procura se deveu principalmente pelo preparo que procurei adquirir com a pós-graduação em Sexualidade Humana, pela Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana em São Paulo, já prevendo a dificuldade que eu teria para orientar as quatro filhas que nós tivemos. Os tabus e preconceitos que existem com relação à sexualidade no momento da orientação dos filhos em geral, eu também as tenho, mas com um pouco mais de habilidade no trato, já que me especializei para tanto.
Acho compreensivo a preocupação com a sexualidade dos filhos.
Ninguém pode negar que as nossos jovens têm buscado aprender as coisas do sexo. No entanto, frustram por não encontrar respostas precisas para seus anseios e angústias quando deparam com tabus e preconceitos. Até pelas nossas negativas em abordar o assunto, porque, mesmo sem generalizar, é mais cômodo para nós pais, transferirmos a responsabilidade de uma forma terceirizada para a escola, religião, etc.
Os jovens se vêem obrigados a procurar os ensinamentos num terceiro caminho com os amigos, revistas eróticas e pornográficas, aprendem de forma deformada.
Mas, como orientar?
Numa pesquisa feita, foi unânime o questionamento feito pelos adolescentes: Porque era tão difícil para os pais conversar com eles sobre sexo.
Os pais desta geração de filhos, vivem num dilema: Como fazer pra orientar? Pais que viviam ao som dos Beathes, Roberto Carlos, ao som de “Gatinha Manhosa”, do sabor da Cuba Libre (bebida feita à base de rum claro e refrigerante de cola, levando também o suco de meio limão) e tinham poucas investidas pro lado das garotas.
É muito importante que o jovem tenha a informação sexual, mas tente, desde a mais tenra idade, a orientação para a formação de sua própria sexualidade de maneira bem natural e espontânea.
- A conversa foi prolongando e foi se abrindo o coração, e o meu amigo relatou que não conseguia viver na sua plenitude a sua sexualidade.
- Infelizmente, os próprios pais criam as barreiras e cortam os canais de informações, isto é, de comunicação.
“A verdade que cada um de nós vive a nossa sexualidade muito particular. Um de forma melhor, outro de forma pior; um de mais, outro de menos; um de forma completa e plena, o outro de maneira incompleta e fragmentada. Mas, todos nós, pais vivemos a sexualidade” (Nilton Geraldo P. Machado).
Mas, é certo que temos alguma experiência e esta que pode e deve ser passada, com carinho e amor aos nossos filhos. Se conseguirmos passar alguma coisa, deve ser com simplicidade, ambiente de respeito, carinho e amor, estamos educando sexualmente os nossos filhos. E, é o que eles esperam de nós, seus pais.
E se acontecer ao contrário? Se você se julgar incompleto ou acanhado. O primeiro ensinamento é tentar aprender ou ler mais sobre a sexualidade humana, não só orientar mas também aprender junto com eles! Mas, se não for suficiente tudo isso, temos o dever de encaminhá-los àquelas pessoas ou comunidades que poderão atender os seus anseios, seja na escola ou em grupos de jovens, etc.
Com que cara ficamos nós


